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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Conto de Maria I

No meio de toda aquela chatice de jantar de negócios, eis que tive um pequeno relapso. Te ver, de repente, sentado do outro lado da mesa fez-me ter um dejavú e perceber que eu já o vi antes. Sim, meu querido, nós nos conhecemos. Senão desta, de outras vidas. De paletó nada amassado, cabelos milimetricamente arrumados e a vida que transfigurava no lindo botão de cravo branco, provavelmente recentemente colhido no bolso esquerdo do peito. De pele aveludada e lábios um tanto quanto equilibrados. Cheios de cor e vontade. Só não sei se cheios da tua vontade ou da minha.

Tentei então imaginar se talvez pudesse lembrar do timbre da sua voz. Fina não deve ser. Ele não tem cara de voz fina. Espera, ele virou. Ih, tem gogó. A voz deve ser das graves. Será que tem sotaque? Preciso parar de encarar, daqui a pouco tá ele lá, pensando que eu sou uma psicopata. Louca. Maluca. 

E eu vou fazer o que? Virei sim, uma psicopata, louca e maluca - por ele -.

Decidida a parar de encarar o pobre - lindo, maravilhoso e meu - rapaz tentei concentrar - me na conversa mais que muito convencional entre meu pais e o chefe dele. Esta é a menina de vocês? É sim. Qual a sua graça? Maria. É um lindo nome, Maria. Sabes que esses dias... Desde então não ouvi absolutamente nada do que falavam à minha volta. Ele levantou. Sim, aquele de que falei que conheci em outras vidas. Arrastou suavemente a cadeira para longe da mesa e levantou. Como ele andava bonito! Desculpa, pai, preciso ir ao banheiro. Licença.

Continua...

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